terça-feira, 17 de março de 2009

Principais heresias dos primeiros séculos - até o ano 451

Aula ensinada pelo pr.Nivton no dia 15/03/2009
No início da era cristã, compreender a natureza divina e a origem de Cristo se tornou um grande desafio. Questões que hoje são vistas de maneira muito clara e óbvia para nós só assim o são devido à muito debate, reflexão e estudo nos primeiros anos do Cristianismo. Até que se chegasse a um ponto comum entre as diversas possibilidades e teorias acerca da natureza de Cristo e da Trindade como um todo, muitas heresias surgiram, confundindo os cristãos, por um lado, e aperfeiçoando sua compreensão ao longo do tempo, por outro.Veremos, de forma resumida, as principais heresias elaboradas nesse período inicial da igreja.

Docetismo
Vindo do gnosticismo, afirmava que Jesus não nascera de Maria, mas aparecera repentinamente já na sua forma adulta. Como sua base doutrinária gnóstica condenava o corpo humano como algo ruim, era coerente pregar que o Cristo não possuísse um corpo carnal. Segundo os docetas, Jesus tinha um corpo fantasmagórico, o que também tornava a crucificação algo irreal.

Ebionismo
Esta heresia legalista e judaizante pregava que Jesus nascera como um homem comum, tendo tornado-se o Messias por cumprir toda a Torá (ou toda a Lei). Para os ebionitas, Jesus não veio para abolir a Lei, mas para cumpri-la e reafirmar a obediência à ela como necessária para uma vida santa.

Adocianismo
Sua cristologia era que Jesus nascera um homem normal, porém foi alguém muito justo. Por isso, fora adotado pelo logos divino no batismo, tornando-se o Messias, o Filho de Deus, tendo sido nessa ocasião revestido pela natureza divina. Dessa forma, era pregado que o Filho não era co-eterno com o Pai.

Monarquismo ou Monarquianismo

O monarquianismo super-enfatizava a unidade absoluta de Deus. Era conflitante com a doutrina da Trindade, que pregava 3 pessoas distintas que são o mesmo Deus. Entende-se ou divide-se em duas categorias:

Monarquianismo dinâmico: compartilha da idéia principal do adocianismo, de que Deus teria adotado a Jesus, compartilhando com ele a sua natureza.

Monarquianismo modalista: Deus manifesta-se de modos diferentes em tempos diferentes. Os modalistas eram também chamados pela igreja ocidental de patripassionistas, por pregarem que Deus manifestou-se como Jesus e morreu na Cruz.

Arianismo
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Credo niceno-constantinopolitano

O Concílio de Nicéia (325) ocorreu para tratar as questões referentes às heresias trinitárias e cristológicas, principalmente, abundantes nos primeiros séculos de vida da Igreja. Sua maior ocupação, porém, fora a cristologia ariana. Foi presidido pelo então imperador romano Constantino. Seu credo foi elaborado e posteriormente revisado no Concílio de Constantinopla (381)

Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Único de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado, consubstancial ao Pai.
Por Ele todas as coisas foram feitas. E, por nós, homens, e para a nossa salvação, desceu dos céus: e encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Maria Virgem, e se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado.
Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as escrituras; E subiu aos céus, onde está sentado à direita de Deus-Pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos profetas. Creio na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. Professo um só batismo para remissão dos pecados. Espero a ressurreição dos mortos; E a vida do mundo que há de vir.

Principais heresias pós-nicenas até o Concílio da Calcedônia
A partir deste ponto, as principais controvérsias se darão por conta do entendimento da natureza de Cristo. Seria ele 100% homem, 100% Deus, 50% homem e 50% Deus, uma natureza mais presente que a outra ou anulada pela outra? Essas perguntas ganharão teorias e destaque até o Concílio Calcedônico, que se ocupará destas questões.

Apolinarismo

Apolinário, bispo de Laodicéia, negava a existência de duas naturezas em Cristo. Para ele, Jesus não tinha um espírito humano, tendo seu espírito sido substituído pelo Logos. Jesus possuía, então, um corpo humano e uma mente divina. Apolinário levava ao pé-da-letra e num sentido estrito o ensindo de João de que “o verbo se fez carne”. Para ele, fazer-se carne o significava também despojar-se da alma.

Nestorianismo
Pregava que em Jesus existiam duas naturezas. Aliás, existiam duas pessoas. Distintas. Jesus era esquisofrênico de natureza. Para Nestório, bispo de Alexandria e seus seguidores, Jesus tinha sua natureza humana nascida de Maria e a natureza divina vinda de Deus pai. Maria seria apenas a mãe de Cristo (christotokos, em grego), não a mãe de Deus (theotokos).

Eutiquianismo
Depois que Jesus se encarnou, passou a ter apenas uma natureza, a humana, segundo o eutiquianismo. Vivendo humanamente, em determinado momento a natureza humana é sucumbida pela divina, gerando um Cristo com uma terceira natureza.

Credo da Calcedônia
O Concílio da Calcedônia (451) tratou principalmente das questões referentes à dupla natureza de Cristo e à encarnação, pontos divergentes entre as igrejas naquele momento.
Portanto, conforme os santos pais, todos nós, de comum acordo, ensinamos os homens a reconhecer um e o mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, totalmente completo na divindade e completo em humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, que consiste também de uma alma racional e um corpo; da mesma substância (homoousios) com o Pai no que concerne à sua divindade e ao mesmo tempo de uma substância conosco, concernente à sua humanidade; semelhante a nós em todos os aspectos, exceto no pecado; concernente à sua divindade, gerado do Pai antes das eras, ainda que também gerado como homem, por nós e por nossa salvação, da virgem Maria; um e o mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, reconhecido em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação; a distinação das naturezas de maneira alguma anula-se pela união; mas, pelo contrário, as características de cada natureza são preservadas e reunidas, para formar uma pessoa e substância [hypostasis], mas não partidas ou separadas em duas pessoas, mas um e o mesmo Filho e Deus Unigênito, o Verbo, Senhor Jesus Cristo; assim como os profetas dos tempos antigos falaram dele e o próprio Senhor Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos pais foi transmitido para nós.

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